quarta-feira, 9 de maio de 2012

'A nova economia exige mais do indivíduo'


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Um novo modelo de economia que privilegie o desenvolvimento sustentável, como o que se pretende discutir na Rio+20, em junho, pressupõe um novo modelo de educação, mais engajada e inserida na sociedade. É o que vai defender James Heckman, estudioso de educação, ganhador do prêmio Nobel de Economia, em 2000, hoje (9) na sua palestra sobre "Educação para sustentabilidade" na Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Para Heckman, a transição para um modelo sustentável vai resultar em pessoas mais criativas e conscientes do impacto de suas ações para o coletivo. Para tanto, educação não pode ser mais medida exclusivamente com nota de prova, mas como formação de cidadãos.

O Globo: O senhor está participando de uma conferência chamada "Ciência para o desenvolvimento sustentável", da Academia Brasileira de Ciências. Como a educação deve mudar para se adequar a um mundo no qual a sustentabilidade tem um papel bem mais relevante? Deve haver um novo modelo de educação para um novo modelo econômico?
James Heckman: Em essência, escolas tendem a ser separadas do resto da sociedade. Esse é um processo muito peculiar. Não é natural à condição humana retirar, de certa forma, as crianças do resto do mundo ao mandá-las para a escola. Criar uma cultura adolescente no ensino médio, e até mesmo na universidade, que é desconectada do resto do mundo, da forma como o mundo funciona. Nós criamos esse tipo de adolescência prolongada em escolas que não treinam as crianças ou os jovens adultos numa série de habilidades sociais, emocionais e práticas que são úteis na vida. Há cerca de 150 anos, a maioria dos profissionais era treinada por outros profissionais, de forma que se via as habilidades serem aplicadas na prática, compreendiam-se todos os aspectos do trabalho. Não eram apenas os efeitos, como ser um advogado ou médico, mas como tratar um paciente, como interagir com o cliente etc. Ele aprendia as habilidades práticas e teóricas e também as estruturas da interação social. Isso foi totalmente dissociado. Hoje as pessoas são treinadas para ser uma coisa, ter uma profissão, dentro de um mundo artificial. E então são jogadas no mundo real sem um treinamento completo. Assim, considero benéfico integrar a educação com o ambiente social e econômico. Mas a educação precisa ser reconsiderada de uma forma mais profunda. Deve ser reconsiderada numa mudança na estrutura de capacidades que criamos. Educação é um conceito mais amplo, é mais que passar em uma prova; é mais um treinamento de caráter que começa muito mais cedo e se estende por muito mais tempo. Creio que, num ambiente sustentável, no qual se cultivam as habilidades humanas, incluindo saúde, cognição e tendências de personalidade, essas características, que nós chamamos de soft skills [termo inglês usado pela sociologia para designar inteligência emocional] devem ser o objeto de algo mais amplo que simplesmente "a escola". Deveria ser um tipo de "formação de habilidades", na qual a escola seria apenas uma pequena parte do processo.

Como essas soft skills são importantes para as crianças entenderem esse novo mundo?
Heckman: Por exemplo, a natureza da tecnologia está mudando. Há cem anos, o modelo padrão de desenvolvimento era a fábrica, pessoas fazendo trabalhos manuais na linha de montagem. Foi um enorme desenvolvimento que aconteceu cem anos atrás. Pessoas como Henry Ford e outros industriais criaram a linha de montagem, que foi tremendamente produtiva. Ela era uma ideia antiga, mas gente como Ford a elevou a uma escala massiva. Mas isso criou a ideia de seres humanos como apenas elementos numa linha de montagem, elementos que faziam uma tarefa específica e nem mesmo compreendiam a natureza do trabalho da pessoa a seu lado ou mais adiante na linha de fabricação. A economia de serviços está se tornando mais forte, maior, e ela demanda habilidades sociais, interação, habilidade para lidar com pessoas, características que não eram tão valorizadas no sistema de fábricas. Assim, é parte do processo de desenvolvimento econômico e social a demanda por soft skills. Vemos também que as habilidades cognitivas necessárias são diferentes. O sistema de fábricas, de linha de montagem, era melhor servido por pessoas obedientes, dóceis, que faziam seu trabalho mas basicamente não eram criativas. A nova economia exige muito mais a participação do indivíduo. Então, parte do processo de desenvolvimento, incluindo desenvolvimento social, é o indivíduo desempenhar um papel cada vez maior como pessoa, de forma que essas características pessoais são mais valorizadas em toda parte. Não é só você como uma máquina pensante, é a sua habilidade de organizar tarefas, de se adaptar e de inovar. Isso requer habilidades que não eram valorizadas no esquema de educação para o modelo de fábricas, de linhas de montagem.

E como isso se aplica à sustentabilidade?
Heckman: Parte do interesse da sustentabilidade vem do sentido de engajamento social. As soft skills hoje são consideradas muito produtivas para criar empatia, confiança e uma sensação de engajamento social. Se o seu trabalho é apenas ficar numa fábrica, ou desempenhar uma tarefa que é muito rotineira numa sociedade muito estratificada, uma ditadura, seu engajamento com questões mais amplas não é lá muito importante. Mas eu acho que o modelo mais amplo de desenvolvimento vai produzir pessoas mais criativas, com mais capacidade de se colocar no lugar do outro, pessoas que pensam mais nas gerações futuras, pessoas mais altruístas, com mais interesse em se juntar ao restante da sociedade e confiar nas pessoas. Assim, você tem um sistema de confiança que é fundamental para uma economia moderna e uma sociedade sustentável. E uma das grandes questões da sustentabilidade é "o quanto nos importamos com a próxima geração?". Isso inclui confiança e ativismo social. A habilidade de reduzir o consumo em prol da próxima geração, de pensar em um projeto social mais amplo, além de seu ganho individual. A educação não pode ser um sistema estreito para ensinar uma habilidade, mas sim algo para ajudar o indivíduo a se engajar mais numa sociedade mais ampla.

O senhor acredita que a educação sobre o consumo deveria estar no currículo escolar?
Heckman: O que deveria estar no currículo é entender as forças maiores da natureza, das escolhas que os indivíduos tomam, em termos de escolhas sociais e políticas. As pessoas deveriam entender melhor a natureza das mudanças climáticas, que as escolhas que fazemos hoje afetam o futuro das próximas gerações, de seus próprios filhos e netos. Hoje o entendimento é com relação a como aumentar a qualidade de vida. Ter crianças entendendo as grandes consequências das ações privadas, até ações de desenvolvimento econômico é algo que as escolas poderiam fazer. As escolas, pais e outras instituições da sociedade deveriam ser parte deste projeto de formar cidadãos. Então é muito diferente de dizer que queremos professores que sejam capacitados para que os alunos atinjam boas notas em provas, como o Scholastic Aptitude Test [prova aplicada em estudantes nos EUA], isso é uma das partes, mas não é o todo. É importante educar pessoas para que pensem mais no resto da sociedade, produzindo um senso de sociabilidade e inclusão.
(O Globo)
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Fonte:  http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=82323 - 09/05/2012
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