quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Sem sexo, os novos relacionamentos do Séc. XXI.

 Mafalda Santos*
 
Há uma nova tendência que prolifera nas sociedades orientais, principalmente entre os jovens, que se revê na abstinência sexual e nos parcos ou escassos momentos de intimidade, mesmo entre casais, que dá pelo nome de Sexless.
 
O Instituto Nacional de Sexologia do Japão define o termo Sexless (sem sexo), para denominar casais cuja frequência de atividade sexual é inferior a uma vez por mês, chegando mesmo a traduzir-se num registo de uma vez por ano ou a cada dois anos. 

Educados desde pequenos a dedicarem-se ao trabalho de forma contínua e obstinada, mergulhados em excessos de facilitismos tecnológicos e de serviços, os japoneses demonstram ter a incapacidade de amar ou de se entregar numa relação, revelando falta de intimidade e de envolvimento emocional, mesmo entre casais jovens e casados, preferindo a masturbação, o prazer solitário, ao invés da presença do outro. 

Proliferam assim os amigos virtuais, bonecos ou jogos, onde é possível ter relacionamentos com um avatar, com uma realidade distorcida e onde é permitido viver a vida que não se tem, mas que se ficcionou. Tudo é mais fácil, menos intrínseco, mais diáfano, menos doloroso. Ter um relacionamento real pressupõe exposição perante o outro, fragilidade, soltar as amarras e deixar-se ir, expondo algo que poucos conhecem ou estão dispostos a dar a conhecer: a intimidade e os seus pontos fracos. 

Isso não parece preocupar a juventude japonesa, onde grande parte já estabeleceu que não necessita de relacionamentos íntimos para se sentir realizada e preenchida - sendo conhecidos no meio como "herbívoros". Mas se pensa que a ausência de práticas sexuais e manifestações de carinho e afeto se limitam apenas ao cliché dos orientais frios e fechados, saiba que o ocidente começa a seguir-lhe os passos, havendo cada vez mais casais que consideram a prática sexual como dispensável.

Amar ou estar?


Se nos anos oitenta e noventa o maior problema que levava os casais a procurarem um terapeuta se prendia com a incompatibilidade sexual (um queria muito, o outro pouco ou nada), atualmente o motivo inverteu-se e a ausência de contacto sexual é o que prevalece, com a agravante de nem um nem outro estarem muito preocupados com o assunto. A ausência de sexo ou qualquer intimidade é sobreposta ao stress, ao trabalho, às responsabilidades e à azáfama da vida diária e profissional. Aparte disso, tudo normal. 

Ninguém disse que ter um relacionamento é fácil, é certo. Claro que é mais seguro falar com alguém por chat do que cara a cara, mas isso também contribui para um alienamento da realidade e uma alteração radical da dinâmica das relações sociais e íntimas. É preciso ter estofo para dizer a alguém, olhos nos olhos, que se ama, ou que nos faz falta, claro que é. Mas também não é isso que dá sabor à vida? Pessoalmente, prefiro bater com a cabeça uma série de vezes, errar, aprender e seguir em frente, manifestar o meu amor e afeto mil vezes se for preciso, do que viver uma vida insípida, feita de sentimentos vazios. 

Como diz o realizador Woody Allen, "Porquê escovar os dentes quatro vezes ao dia e fazer sexo duas vezes por semana? Porque não o contrário?".
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* Colunista do Expresso. Site de Portugal
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