quinta-feira, 13 de novembro de 2014

A glória precoce de Pablo Picasso

Manuel S. Fonseca*

gertrud stein
É neste tableau que começa a glória, a glória prematura de Picasso. Gertrud Stein, americana, escritora, uma escritora que sonhava revolucionar a escrita do século XX, pediu a Picasso que a pintasse, tinha Picasso acabado de pintar arlequins. Minto, foi ele, para quem (e é outra mentira) já ninguém posava desde os 16 anos, que pediu para a pintar. Ele tinha 24 anos, ela 31. Foram 90 sessões de pose, em 1905 e 1906

Há uma discrepância óbvia entre o movimento do corpo e a imobilidade de pedra do rosto, entre a solidão da massa corporal e o esculpido vazio do olhar. Stein escreveu que, entre todos os artistas de Paris, este jovem Picasso, que a retratava, era o único que pintava já com o olhar no século XX. Todos os outros, brilhantes, revolucionários, tinham ainda o olhar no século XIX.

A revolução que Stein queria ter incarnado na escrita, incarnou-a Picasso na pintura. Desta tela dizia Picasso: "Toda a gente diz que a Gertrud não está parecida, que ela não é assim. Não faz mal, vai ser." Stein, à sua maneira, não discordou, como se depreende do que que aqui escreve sobre semelhança ou parecença: "To exact resemblance the exact resemblance as exact as a resemblance, exactly as resembling, exactly resembling, exactly in resemblance exactly a resemblance, exactly and resemblance."

A admiração de Stein moveu montanhas. Diz-se que Picasso ganhou um prestígio precoce, que ainda não mereceria. "Pode ser que sim - confirma Picasso -, mas foi à sombra desse sucesso que pude fazer tudo o que queria fazer."
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* Escritor português.
Fonte: Site do autor.

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