terça-feira, 5 de outubro de 2010

''Em minha precariedade, digo 'amém' e espero que Deus responda''

Enzo Bianchi*
                                                                                                                                  Imagem da Internet
"Se a fé é um dom de Deus que deve ser acolhido pelo homem,
precisamente porque quem crê é o ser humano,
então é também um ato humano,
um ato da liberdade da pessoa que responde
 ao Deus que fala".
Uma e mesma etimologia conecta diversas palavras: prex, prece; precari, rezar; precarius, precário... pondo em evidência precisamente a “precariedade”, a possibilidade de obter ou de não obter quanto se pede através da prece, mas também a condição “precária” em que se encontra aquele que reza, que faz sua prece. Sim, a prece é fundamentalmente uma ação “precária”, suscetível de eficácia ou mesmo não, que pode ser atendida ou ser ineficaz. Por isso, quem reza começa a fazê-lo pondo-se, conscientemente ou não, uma pergunta: “E, se Deus não responde?”. Mas, esta natureza da prece é própria também do próprio ato de crer: a fé é um dom que traz em si a precariedade. “E, se Deus não existisse?” não pode deixar de perguntar-se o crente.
Uma pergunta lacerante que não pode ser evitada sem mais, também porque a fé não está no espaço do saber, mas naquele da convicção. A fé não é uma posse definitiva, não é uma certeza adquirida uma vez por todas: ela participa da insegurança que caracteriza a liberdade da pessoa e por isso no coração de cada crente há certa simultaneidade de fé e incredulidade, como nos atesta também o Evangelho de Marcos a propósito do pai do menino epiléptico que se dirige a Jesus nestes termos: “Eu creio, mas ajuda-me na minha incredulidade!” (Mc 9,24). A dúvida faz parte do crer e por isso a precariedade, a incerteza faz parte da fé: cada dia a fé se renova vencendo a dúvida, aceitando não saber, decidindo dar livre consentimento a uma promessa, vivendo como peregrinos jamais residentes, sentindo-se não sós, porém junto a outros, como numa caravana.
Se a fé é um dom de Deus que deve ser acolhido pelo homem, precisamente porque quem crê é o ser humano, então é também um ato humano, um ato da liberdade da pessoa que responde ao Deus que fala: “Não é Deus, mas o homem que crê”, afirmou com justeza Karl Barth. Assim, a fé é uma escolha da pessoa que envolve todo o seu ser, manifestando-se como um ato humaníssimo e vital, preso à vida; é entrar numa relação, num relacionamento vivo com outro alguém. Fé é dizer: “Amém, é assim; eu adiro, tenho confiança, confio em alguém”. Quando falamos de fé, não devemos pensar imediatamente em crer n’alguma verdade, ou em determinados dogmas (essa é a que os teólogos definem como fides quae [fé, a qual]; devemos, ao invés, pensar a fé como aquele ato do qual dão testemunho as sagradas Escrituras e que consiste em ficar de pé com segurança (cf. Sl 20,8-9; 125,1; Is 7,9), no confiar-se como uma criança presa com uma faixa ao peito de sua mãe (cf. Is 66,12-13), segura nos braços dela (cf. Sl 131, 2). A fé encontra, então, sua dimensão de necessidade humana. Poderíamos dizer que não pode haver autêntica vida humana, humanização, sem fé.
Nós, seres humanos, diversamente dos animais, saímos incompletos do útero materno e, para vir ao mundo e crescer como pessoas temos necessidade de alguém em quem depositar fé-confiança. Reflitamos sobre quantas ações de nossa vida dependem do nosso ter fé... É possível crescer sem ter confiança em alguém, a partir dos progenitores? É possível começar a percorrer uma história de amor sem ter fé no outro? É possível construir laços sólidos sem fundá-los sobre a rocha da confiança no outro? Sim, em toda a vida precisamos ter fé, criar confiança, crer em alguém.
Quando acedemos à plenitude das relações, àquelas mais pessoais e íntimas como àquelas sócias e públicas, devemos confiar-nos, dar crédito ao outro. Em suma, não se pode ser humano sem crer, porque crer é o modo de viver a relação com os outros; e não é possível nenhum caminho de humanização sem os outros, porque viver é sempre viver com e através do outro. E é precisamente em razão desta “humanidade” da fé que podemos ler a atual crise da fé como desencadeada pela crise do ato humano de crer, um ato tornado difícil e frequentemente contradito. Temos dificuldade em crer no outro, estamos pouco dispostos a depositar confiança no outro, não ousamos dar-lhe crédito até o fundo.
Constatamo-lo cada dia: por que se prefere a convivência ao matrimônio? Por que se tornou tão difícil a história perseverante do amor? Porque tão seguidamente sofremos por causa da separação, da perda da aliança no amor humano ou da aliança ligada ao interior de uma vida comunitária? A verdade é que não somos mais capazes de pôr, na nossa vida, o ato humano do crer. E nesta situação de extrema precariedade, como poder reencontrar uma fé robusta? Talvez precisamente recomeçando a ter confiança nas mais banais situações cotidianas, talvez precisamente no procurar colocar diante de Deus a incerteza que caracteriza o nosso viver, talvez no abandonar-nos confiantes nas mãos daquele que Jesus de Nazaré nos ensinou a chamar “Pai”.
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A opinião é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, em artigo publicado no jornal dos bispos da Itália, Avvenire, 19-09-2010. A tradução é de Benno Dischinger.
FONTE: IHU online, 03/10/2010

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