quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Geraldo Vandré, lúcido?

Francisco Quintino*

Imagem da Internet

 
Somos todos iguais, braços dados ou não...

Geraldo Vandré, 75 anos, um dos maiores enigmas da Música Popular Brasileira, quebrou o silêncio num documentário de TV exibido em canal fechado esta semana, após quatro décadas de isolamento, ele que é cantor e compositor de “Pra Não Dizer que Falei das Flores”, que se transformou em hino de manifestações contra a ditadura militar. Numa entrevista publicada num blog, Vandré disse que, ao voltar do exílio, no final de década de setenta, seus companheiros o receberam com decepção, porque ele estava vivinho da silva, e eles o queriam mártir e morto. A seu ver, seria para eles mais uma bandeira. Ele voltou doente e meio perdido em seu país, foi quando justamente os militares o acolheram, deram-lhe tratamento médico e o alojaram, sendo essa uma relação de seres humanos e não de instituições.
"Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer..."

Disse mais: “Outra coisa, tem que se acabar com essa ideia de que dentro dos quartéis todo mundo será sempre de direita. As coisas mudaram e a tendência dos jovens oficiais hoje é mais de esquerda, ou de centro, na pior hipótese”. “Não foram as Forças Armadas as responsáveis pelos anos de ditadura, mas sim os homens que estavam à frente delas naquele momento." Para fins de registro histórico, assegura que não se considera antimilitarista, que não foi maltratado fisicamente pelo regime militar, e no depoimento que foi forçado a gravar no retorno do exílio falou o que quis, é de sua autoria a canção “Fabiana” em homenagem à Aeronáutica, segundo ele, o exército azul.

"Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição:
De morrer pela pátria
E viver sem razão"

Ao declarar que não fazia música de protesto e sim música brasileira, a meu ver, a classe média que adotou a canção como hino de resistência à ditadura, ávida por transformar a realidade, teria excedido as intenções do próprio autor. O idealismo que insurge da canção parece simbólico, em que o compositor traduziu em letra e música o cenário triste daquele momento da História, sem o engajamento político na proporção que insinuavam seus versos. O depoimento é intrigante, a memória nos reconduz ao período de obscuridade política e descaracteriza um dos principais mitos históricos. Quais as lições que ainda não se aprenderam do ponto de vista ideológico nesse lento processo de amadurecimento político no Brasil? Na lucidez camaleônica de Vandré, que parece decepcionado com os rumos da humanidade massificada, ainda podemos emprestar seus versos e caminhar cantando, tanto quanto cantar caminhando. E seguir aprendendo e ensinando novas lições, repelindo patrulhamento e discriminação ideológica.
"Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Somos todos soldados
Armados ou não
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não..."

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*O autor é presidente PPS/Rio Claro

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