quarta-feira, 26 de junho de 2013

"Francisco", por Pedro Mexia

Quando um homem chamado Jorge se apresentou ao mundo como "Francisco", muitíssima gente pareceu esperançada com aquela escolha onomástica. Um milénio antes, um homem chamado Giovanni tinha-se chamado "Francesco", talvez por amor às coisas francesas. E a sua mensagem ainda ecoa entre crentes e não-crentes, de tal modo que há três meses parecia que éramos todos franciscanos.

É conhecida a tese segunda a qual a substituição das crenças "mágicas" pela ciência constituiu um "desencantamento do mundo". Podemos, então, considerar a inesgotável popularidade do franciscanismo como um "encantamento do mundo", espanto infantil perante coisas recém-criadas ou recém-descobertas. É esse um dos segredos de Francisco de Assis, e poucos o entenderam tão bem como outro católico jubiloso, Gilbert Keith Chesterton, que em 1923 publicou uma pequena biografia, "St Francis of Assisi", recentemente traduzida em português [edição Alêtheia]. Chesterton explica que Francisco «'antecipou as características mais liberais e compreensivas do mundo moderno: o amor à natureza, o amor aos animais, a compaixão social, a noção dos perigos sociais que resultam da prosperidade e mesmo da propriedade». Uma forma de cristianismo que convoca muitos não-cristãos, agora como outrora.

Comecemos pela natureza, questão essencial e mal compreendida. Francisco viveu toda a vida segundo uma "teoria da gratidão". Tanto que se celebrizou como poeta de cânticos de louvor e agradecimento, cânticos das crtiaturas, aspecto que muitos confundem com "panteísmo". Chesterton desmistifica essa ideia: Francisco achava que o paganismo tratava a natureza de forma antinatural, e que era preciso "sobrenaturalizar" a natureza, resgatando-a. Por isso, quando elogia "a criação", isso significa tanto "as coisas criadas" como "o acto criador", e o próprio "ente criador". É provável que algumas pessoas tropecem neste equívoco, mas quem pode dizer que se trata efectivamente de um equívoco? «Deus viu que tudo era bom», é o que vem no Génesis.

Quanto à compaixão, tratava-se de uma virtude mas também de um traço de personalidade. Francisco era decerto voluntarista, impetuoso, abrupto, seguia os impulsos de cada instante, com fé e sem grandes angústias. Era um homem prático, mas não era um "pragmático": Chesterton diz mesmo que ele não seguia o "praticável", ou seja, o que é fácil, mas o exigente: «Era tão prático que não conseguia ser prudente.» O homem de Assis acreditava que somos todos iguais, fraternidade que é teológica e antropológica, antes de ser política. O ideal de "irmandade" que Francisco praticou nasceu de encontros com pedintes, com leprosos, com outros-eus, irmãos que ele abordava com uma igualdade não-sentimental, feita de cortesia, de simplicidade, num gesto que, tantos séculos depois, ainda nos toca.

Por último, mas não em último, Francisco amava o mundo através do desapego às coisas do mundo, como se isso fosse a própria definição de liberdade. Filho frívolo de um abastado comerciante de tecidos, entrou em choque com o pai e despojou-se de todos os bens. Andava vestido como uma túnica castanha atada com uma corda, jejuava ou passava fome, dependia da mendicância, quer dizer, da generosidade dos estranhos. Não fez apenas voto de pobreza, contestou igualmente a noção de propriedade, ou antes, de posse. Escreve Chesterton: «Há nele uma suave mofa da própria ideia de posse; uma espécie de esperança de desarmar o inimigo por via da generosidade; uma espécie de necessidade bem-humorada de espantar o mundo com atitudes inesperadas; uma espécie de alegria de levar uma convicção entusiasta aos seus lógicos.»

Francisco tem também outras dimensões. Existem muitas histórias e fantasias, muitas colecções de episódios, de tal modo a figura incendiou a imaginação medieval. Mas bastavam o amor à natureza, a compaixão e o desapego para que ele tivesse sido visto como uma espécie de lunático encantador. Um asceta rigoroso mas eufórico que levou os votos monásticos a um extremo comovente. Francisco era como os estilistas, cristãos bizantinos que viviam em sacrifício no cimo de pilares; a diferença é que ele ficava cá em baixo, com os outros, como um poverello, um jogral de Deus. Esse ascetismo alegre tornou-o popular como poucos santos fora,. Um santo estranho mas acessível.

E não esqueçamos que Francisco era também um místico, a quem são atribuídos estigmas, visões, milagres. Contudo, não era um daqueles homens que Chesterton diz que se fazem místicos porque são «excessivamente cépticos para serem materialistas». Ele vivia na fé total e completa, numa mística amorosa, trovadoresca, idêntica à do amor cortês do seu tempo, um amor quase abstracto, mas concreto à força da desmesura. Dante descreveu-o assim: «Mas por que eu não pareça assaz escuso, / Francesco e a Pobreza por amantes / entendas ora em meu falar difuso. / Sua concórdia e seus ledos semblantes, / amor e maravilha e doce esguardo / de santos pensamentos são constantes» [versão de Vasco Graça Moura].

Confesso que sou bastante mais agostiniano do que franciscano; mas estive uma vez em Assis, nos lugares onde Francisco viveu, e lembro-me de que aquelas colinas da Úmbria eram habitadas por uma paz como nunca ouvi antes ou depois. Percebi agora que muito mais gente também a escutou.
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Pedro Mexia
In Expresso, 22.6.2013
25.06.13

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