domingo, 2 de junho de 2013

O gato que gostava de cenouras (2)

Rubem Alves*
Continuação de texto publicado em 19/05/2013
 
Acontece que na escola havia um professor que compreendeu o sofrimento de Gulliver, sempre sozinho, sem amigos, objeto da zombaria dos colegas.

— Quero falar com você — disse ele a Gulliver — no meu escritório.
Gulliver estremeceu. Será que o professor o repreenderia por causa de seu gosto por cenouras?

— Quero contar uma coisa a você — ele começou, depois de fechar a porta. — A genética nos conta que nosso destino está gravado nas células de nosso corpo, num disquete muito, muito pequeno chamado DNA. Ele já está no feto, antes que o bichinho nasça. Antes de você nascer, seu corpo já estava programado pelo DNA: a forma de seus olhos, a cor de seu pelo, se você seria gato ou gata. É assim com todas as coisas vivas. Os cachorros, os coelhos, os gambás, os sabiás, as curruíras, os urubus: todos são diferentes porque seu DNA é diferente. Isso vale até mesmo para as plantas: de semente de abóbora só nasce abóbora. De semente de carvalho só nasce carvalho. E o DNA é implacável: aquilo que a natureza fez ninguém é capaz de desfazer.

Gulliver não estava entendendo a razão daquela aula, mas estava achando a explicação interessante. O professor, então, prosseguiu:

— Por vezes, o disquete DNA não funciona da forma esperada. E, quando o bichinho nasce, nasce um pouquinho diferente. Alguns, chamados daltônicos, não veem as cores do jeito como a maioria vê. Outros, chamados canhotos, funcionam melhor com a mão esquerda que com a direita. Eles têm de tocar violão ao contrário — e deu uma risada. — Parece que esse é o caso daqueles que têm uma dieta de amor diferente daquela reconhecida como padrão. O padrão é gato comer rato. Mas você gosta é de cenoura.

— Os chamados heterossexuais amam o diferente: o corpo dos homens se comove ao ver um corpo de mulher; o corpo das mulheres se comove ao ver o corpo de um homem. Mas o corpo dos homossexuais, quem sabe se por obra do DNA, se comove ao ver um corpo igual ao seu. Tal como aconteceu com Narciso, aquele do mito dos gregos: ele se apaixonou por sua própria imagem refletida na água da fonte. É tão interessante isso: que nosso sexo seja movido por uma imagem!

Dito isso, ele parou, e pareceu mergulhado num sonho. De repente acordou, deu uma risadinha, e disse:

— E eu chego a pensar que Prokofieff... Você sabe quem é Prokofieff? É um compositor. Você nunca ouviu sua música 'Pedro e o Lobo'? É uma estória para crianças, muito divertida. Tem um gato que toca clarinet... Pois é: penso que é possível que ele também tenha sido um equívoco do DNA. Por vezes, o DNA se engana para melhor.

De repente, Gulliver compreendeu que o professor sabia tudo sobre ele. Sabia e compreendia. Compreendia e não queria consertá-lo, não queria torná-lo igual aos outros. Ele era amigo.
“Meu Deus!” — ele gritou em silêncio. “Eu tenho um amigo! Eu tenho um amigo!”

E a felicidade de ter um amigo foi tão grande que ele se pôs a chorar como nunca chorara. Ele gostava era de comer cenouras. Não queria gostar de comer nem ratos nem passarinhos nem peixes. Não queria ficar igual aos outros. Seu único desejo era não ter vergonha. Seu único desejo era que os outros deixassem que ele fosse o que era: um gato que gostava de cenouras!

Em resumo: ele queria ter amigos. Porque um amigo é isso: alguém de quem não é preciso se esconder.

Mas agora ele tinha um amigo. Olhou para o professor, enxugou as lágrimas de alegria e não disse nada. Não era preciso.
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* Educador. Teólogo. Escritor.
Fonte: Correio Popular on line, acesso 02/05/2013
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