segunda-feira, 13 de maio de 2013

Livro sobre Derrida foca infância e rejeição do filósofo

Lançamento enfatiza dificuldade do autor em se firmar no meio acadêmico e destaca seu talento de escritor 
 
Jackie, Derrida, Jacques Derrida. O nome de batismo do filósofo, o sobrenome com o qual passa a ter inserção acadêmica e, enfim, a assinatura que hoje equivale a um poderoso sistema de pensamento dão título às três partes da biografia "Derrida", que o pesquisador francês Benoît Peeters lança hoje em São Paulo. 

O livro não é uma introdução ao pensamento de Derrida (1930-2004), pressupondo familiaridade com termos como "gramatologia" e "desconstrução", pelos quais ele restaura a importância da escrita no discurso filosófico e relê a tradição ocidental explorando desvios latentes. 

Tampouco é uma biografia à maneira anglo-saxã, cumulativa e detalhista. O que importa a Peeters são cortes biográficos decisivos --a começar pela infância argelina. 

"A Argélia é uma experiência determinante na vida de Derrida. Sem ela, ele seria em larga medida incompreensível", declarou Peeters em entrevista à Folha

"Depois da Guerra da Argélia [pela independência, de 1954 a 1962], que para ele foi um dilaceramento quase tão forte quanto para [Albert] Camus, ele falará de nostalgéria' [versão da nostalgia que estrutura e permeia a linguagem]. Mas demora para que essa parte da vida --como a condição de judeu-- tenha lugar em sua obra." 

A história do "judeuzinho de Argel expulso da escola aos 12 anos" (por causa de leis antissemitas) se conecta a um traço surpreendente: o "sentimento de não reconhecimento" nos círculos acadêmicos, apesar da ampla difusão de suas ideias não apenas na França, mas em países como EUA e Brasil. 

Essa sensação de "não legitimidade" seria reforçada pelos escândalos de ligações ao nazismo de dois pensadores com os quais Derrida estava sintonizado: o alemão Martin Heidegger e o belga Paul De Man. 

"Os dois casos colocam em questão Derrida e a desconstrução de modo tão violento quanto injusto. Mas também conduzem Derrida aos terrenos da política e da ética. Os títulos dos seminários dos anos 1990 parecem respostas filosóficas às questão levantadas: o segredo, o perjúrio, o testemunho, o perdão", comenta Peeters. 

Ele cita um episódio da rejeição de Derrida pelo "establishment" acadêmico: a carta que uma professora de Yale mandou ao ministro Laurent Fabius protestando contra uma nomeação de Derrida, que ela define como "fraude intelectual" e praticante do "obscurantismo terrorista" (expressão colhida em Michel Foucault). 

O ministro, conta Peeters, limitou-se a repassar uma cópia da missiva a Derrida, com a recomendação de "nunca descer uma escada à frente dessa dama". 

DERRIDA ESCRITOR
 
À imagem de um autor de linguagem hermética, que desentranhava sentidos filosóficos da desmontagem de conceitos e etimologias, Peeters contrapõe um leitor fervoroso de Gide, Valéry, Sartre e Blanchot, que aos poucos criou um estilo lírico, entre o oral e o escrito.
Derrida criava frases cujos movimentos alguns críticos aproximaram dos últimos romances de Henry James.
"O Derrida escritor merece ser analisado de perto. Ele é bem menos hermético do que se diz. Sua escrita manifesta, frase após frase, a inquietude e o temor da fixidez que estão no coração de seu pensamento", conclui Peeters. 

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