terça-feira, 14 de maio de 2013

Somos todos netos de Keynes

Flavia Pardini*

Em um ensaio sobre “as oportunidades econômicas para nossos netos”, escrito em 1930, 
o economista John Maynard Keynes previu que em 100 anos 
a humanidade teria solucionado “o problema econômico”.
 
Entre as medidas para mitigar a mudança climática – todas de implementação complicada –, uma poderia resultar não só em benefícios ambientais, mas em uma revolução econômica, isso sem falar em um salto na qualidade de vida.
 
Em uma época em que todos estão, sempre, atarefados, soa até herético: trabalhar menos.
Se decidíssemos coletivamente cortar a quantidade de horas trabalhadas em cerca de 0,5% ao ano até o fim deste século, seria possível neutralizar até a metade dos efeitos da mudança climática – em termos de aquecimento – que ainda não estão determinados por emissões passadas.

O cálculo, publicado recentemente pelo economista David Rosnick, do think tank americano Center for Economic and Policy Research, é mais um resultado em uma série de estudos recentes que ilustram a associação entre horas trabalhadas e emissões de gases de efeito estufa (GEE).

Em um deles, realizado em 2010, pesquisadores analisaram dados sobre trabalho, tempo de lazer e consumo 
de energia em residências suecas. Concluíram que uma redução de 1% no número de horas trabalhadas pelas famílias suecas resulta em uma queda média de 0,8% no uso de energia – e consequentemente nas emissões de GEE. Ao trabalhar menos, os suecos recebem menos renda e, portanto, consomem menos.

Embora os benefícios ambientais pareçam claros, diminuir a jornada de trabalho teria impactos econômicos tão profundos que pouco se ouve falar no assunto.

O PROBLEMA ECONÔMICO

Em um ensaio sobre “as oportunidades econômicas para nossos netos”, escrito em 1930, o economista John Maynard Keynes previu que em 100 anos a humanidade teria solucionado “o problema econômico”.

“Pela primeira vez desde sua criação, o homem enfrentará seu problema real e permanente – como usar sua liberdade das preocupações econômicas, como ocupar o lazer, que a ciência e a taxa de juros composta terão conquistado para ele, para viver bem, com sabedoria e de forma agradável”.

A meros 17 anos da data prevista por Keynes, ao contrário, encontramo-nos em uma “armadilha da produtividade”, na descrição dos economistas britânicos Peter Victor e Tim Jackson.

A produtividade do trabalho, uma das medidas mais fundamentais de sucesso econômico, é definida pela relação entre a produção, dimensionada pelo PIB, e o tempo dedicado pelos trabalhadores para que tal produção seja realizada.

Mais produtividade significa mais produção com menos horas trabalhadas. A busca pelo lucro, a inovação, o desenvolvimento tecnológico e o acesso a recursos materiais baratos são alguns fatores por trás do aumento contínuo 
da produtividade. O fato de que cada trabalhador é capaz de produzir mais a cada ano significa que menos trabalhadores são necessários no ano seguinte para produzir a mesma quantidade.

Enquanto a economia cresce – ou seja, produzimos mais –, não há problema. Mas, quando não há crescimento, o resultado é desemprego – vide as economias europeias em crise. Não é à toa que o mantra dos políticos para eleger-se – e manter o status quo – é mais crescimento e empregos.

Reduzir a jornada de trabalho é uma das medidas sugeridas por Victor e Jackson para sairmos da armadilha da produtividade. Se cada um trabalhar menos, haverá trabalho para mais gente. A outra é investir no que eles chamam de “economia cinderela”.

São atividades em que a produtividade do trabalho é baixa, assim como o potencial para que ela cresça. As sementes para tal economia, dizem os autores, existem em alguns empreendimentos sociais: projetos 
de energia comunitários, mercados de agricultores, cooperativas de alimentos, oficinas de reparos, jardinagem, treinamento, centros comunitários de saúde e exercício físico, entre outros.

Ao adotar tais medidas e desarmar a armadilha da produtividade, estaríamos também revolucionando o modelo econômico de crescimento contínuo.

Desacelerar os motores da produtividade é a necessidade atual mais premente, diz
o antropólogo e ativista americano David Graeber. “Nossa reação instintiva a todas as crises é assumir que a solução é que todos trabalhem mais, mas claro que essa reação é justamente o problema.”
Os nós que nos atam – dívidas insustentáveis nas esferas nacional, corporativa e pessoal e a aguda crise ecológica – são, em última análise, a mesma coisa, argumenta Graeber. “O que é a dívida, no fim das contas, senão a promessa de produtividade futura?”
O aumento do endividamento significa que, coletivamente, prometemos uns aos outros produzir cada vez mais bens e serviços no futuro, alimentando as crises que podem afetar drasticamente a humanidade.
Não é suficiente atacar a questão do trabalho sem agir em outras frentes para redesenhar o sistema econômico claramente. Mas, se trabalhar menos é parte da solução, nós, indivíduos, só teríamos a ganhar.
Finalmente, como previu Keynes, poderíamos nos dedicar ao problema humano.
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*Flavia Pardini é jornalista e fundadora da Página 22
(Página 22)
Fonte: http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/14/05/2013

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