segunda-feira, 3 de março de 2014

Dizer a fé aos não crentes: Razão e emoção, como no enamoramento

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O livro "Lo scandalo dell'amore" ("O escândalo do amor - Diálogo sobre fé e razão"), em que o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho da Cultura, e o filósofo francês Luc Ferry dialogam sobre fé e razão, vida e morte, verdade e mentira, vai ser lançado esta terça-feira nas livrarias italianas.

Do volume da editora Mondadori apresentamos um excerto do diálogo final, publicado este domingo no jornal do Vaticano, "L'Osservatore Romano".

Luc Ferry

"Credo ut intelligam" [Creio, por isso compreendo], diz Santo Agostinho. Gostaria de regressar a esta ideia paradoxal, segundo a qual se deve primeiro encontrar e depois procurar. Para a expressar em termos mais comuns, seria necessário começar com a fé, e só num segundo tempo mobilizar a razão.
Várias vezes o senhor diz que a verdadeira teologia caminha sobre uma aresta, entre dois abismos, dois vales, nos quais não se deve cair: de um lado, a aproximação unicamente histórica, factual, racional, filosófica; do outro, um misticismo irracional, um "entusiasmo místico", uma Schwärmerei, para usar um termo do romantismo alemão. É preciso por isso manter-se sobre a crista, o que implica conjuntamente quer a razão e a história factual, quer uma aproximação transcendente. 

Só desta forma se pode estar em harmonia com o objeto principal da teologia, Jesus, que é ao mesmo tempo um ser histórico, mas também alguém de quem não se pode compreender a mensagem se não se possui já a fé. Somente nesta condição haverá harmonia entre o método teológico e o objeto da teologia.

Porque é que escolheu esta aproximação, tendo em conta que se está a dirigir a não crentes, no quadro do Átrio dos Gentios? O que é que se espera que se compreenda de preciso, dado que se requer em primeiro lugar a fé para compreender, e que, por definição, nós, os não crentes, não a temos?

Gianfranco Ravasi

O amar precede o compreender. Esta questão pode ser o início para explicitar o meu pensamento sobre a reflexão teológica, que se baseia num esquema que parte de Pascal, o qual dizia que se compreendem as coisas que se amam. Este conceito pode ser ampliado até chegar aos confins da antropologia, ou seja, da experiência comum a cada pessoa humana. 

Com efeito, a consciência primária da pessoa é simbólica, está marcada por um movimento de adesão afetiva a um universo que se abre diante do olhar. A criança, por exemplo, tem como primeiro conhecimento a visão de conjunto, em seguida aprenderá a distinguir segundo as regras da análise. Do mesmo modo procede o poeta, que não analisa os sentimentos, os rostos, os olhares, as paixões, as situações, mas representa-os em termos sintéticos, por vezes fulminantes, como o clarão de um relâmpago que encandeia. 

O itinerário de fé autêntico é, em certos aspetos, paralelo ao percurso estético; por isso o ponto de partida é crer/amar, com um começo de tipo simbólico representativo. Neste horizonte, para usar o binómio ao qual o senhor se referiu, podemos afirmar: crer, e depois começar a compreender. 

Neste ponto passa-se ao segundo momento, isto é, à análise em sentido estrito. Esta procura, no entanto, não pode ser conduzida através de um único canal, uma única via de conhecimento. Com efeito, o estatuto epistemológico próprio da teologia necessita pelo menos de dois percursos paralelos.

O primeiro compreende a documentação histórica e a análise racional. A figura de Jesus, por exemplo, deve ser estudada tomando em consideração a verificação histórico-crítica, mas também a dimensão psicológica, com o contributo da psicanálise, com os seus critérios de indagação, ou da antropologia cultural, e não apenas com a necessária análise racional entendida segundo cânones filosóficos ou históricos rígidos.

Definirei o segundo nível, ainda que com algumas precisões, como místico, teológico em sentido estrito. Trata-se de um cânone mais específico, que tem em conta a dimensão metaracional, que não significa simplesmente afirmar princípios ou ideias vagas, inconsistentes, mas reconhecer que existe outra ordem cognoscitiva com o seu estatuto metodológico e a sua coerência intrínseca. Este modelo de conhecimento, por exemplo, considera a Bíblia também como palavra transcendente, superando os rigorosos princípios de uma linguagem literária, histórico-crítica.

Pode ajudar-nos a entrar nesta segunda dimensão o livro de Job, que de um lado vê os três amigos Zofar, Bildad e Elifaz, aos quais se junta Elihu, que mantêm o seu diálogo sobre uma trama de racionalidade pura, sem se abrirem à transcendência. Num primeiro momento, Job polemiza com os amigos sobre o próprio terreno do raciocínio, mas no fim abre outro horizonte cognoscitivo, que lhe permite afirmar, no que diz respeito a Deus: «Os meus ouvidos tinham ouvido falar de ti [é a via racional], mas agora veem-te os meus próprios olhos» (Job 42, 5).

Com esta afirmação, ele introduz o parâmetro da visão, o conhecimento de tipo teológico em sentido estrito, que não é vagamente sentimental, mas que possui um estatuto e método.

À luz desta perspetiva podemos recordar Tomás de Aquino, Anselmo, Pascal, Kierkegaard e outros autores, que procuram individuar não só a gramática da razão, mas também a da "metarazão". Sobre esta esteira podemos recordar também alguns grandes místicos, como João da Cruz e Teresa de Ávila. João da Cruz, por exemplo, descreve a ascensão até Deus por graus, passando também através da noite do espírito. Tudo isto não é pura emoção, mas manifesta um rigor expositivo articulado sobre uma sintaxe teológica. Neste sentido, podemos dizer que a esperança do crente e, subordinadamente, o trabalho do teólogo, nascem de um percurso que em certos aspetos é comparável ao envolvimento total requerido no enamoramento.

De facto, a experiência do amor tem certamente uma dimensão racional - os dois conhecem-se, discutem, sonham, projetam -, mas a componente fundamental está sintonizada num comprimento de onda diferente. O rosto da mulher que se ama manifesta-se como belíssimo, único, enquanto que para os outros não é mais do que um dos muitos rostos que passam pelo "vídeo" do quotidiano. 

Seria errado pensar que o enamoramento é apenas uma experiência emotiva; ele, com efeito, contempla também o aspeto racional que, por vezes, pode colocar em crise o plano afetivo. O enamorado faz uma "experiência de fé" que não tem Deus como interlocutor, mas a beleza, que é, em todo o caso, uma realidade transcendente. Isto deve-nos oferecer a possibilidade de apresentar a fé não como um conjunto de normas, mas como uma experiência "outra", que envolve toda a pessoa, mente e coração.
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In Lo scandolo dell'amore, ed. Mondadori
Trad.: SNPC/rjm
Fonte: © SNPC | 03.03.14

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